O termo ortodoxia sempre foi muito caro ao Cristianismo. Pode-se dizer que o motor de sua constituição histórica no Ocidente é a produção de ortodoxia e o seu triunfo sobre os discursos denominados de heresias. Não haveria o produto Cristianismo sem essas “guerras santas” contra o erro, contra as formulações consideradas heréticas. Entenda-se que esses combates pela “verdadeira fé” aconteciam dentro de relações de poder, de uma política e uma micro-política que definiam os níveis de força dos combatentes, e de que lado estava a verdade. O triunfo da ortodoxia, de um discurso tido como verdade, acaba por marcar os discursos contraditórios como mentira, e os condena ao silêncio. Não há ortodoxia sem censura, isso deixa claro o poder que subjaz o discurso chamado verdade. Todos os surtos de produção teológica como Patrística e Escolástica são frutos dessa guerra, sob elas há vozes que foram danadas e silenciadas pela história. E no impulso de fazer triunfar a ortodoxia, lança-se mão de toda a parafernália discursiva disponível, a gramática e as formulas para a fabricação de uma verdade, por isso, Agostinho parasita Platão e Tomás de Aquino batiza Aristóteles.
A ortodoxia é filha da verdade entendida como discurso racional, como logos, e é essa vontade de ortodoxia que encastelou isso que chamamos de Cristianismo. A sabedoria é justificada por seus filhos. Essa concepção de verdade mendigada dos gregos socráticos gerou dragões em pele de cordeiro: o catolicismo, o protestantismo, inquisições, fogueiras, liberalismo, fundamentalismo... E todos esses filhotes se pretendem da família de Jesus.
A verdade tida como discurso racional, estruturado pela linguagem, é a coisa mais satânica que o homem intentou. É a mentira se assentando no trono de Deus. Que dirá então de seus filhos! O que João afirmou em seu evangelho foi que o logos se fez carne. O Cristianismo fez questão de reverter isso, a carne tornou-se o logos dos homens. Ortodoxia é isso, é a diluição da carne em logos humano. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, assim disse o Deus-homem, não é simples implicar disso que todas as pretensões à verdade se tornam mentira? Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso. Cale-se diante dEle toda a terra! A verdade é Cristo, a Palavra de Deus encarnada, e nenhuma mediação humana pode tornar essa carne em discurso racional, ou se crê nela apaixonadamente e vive, ou não se crê e permanece na morte. Deus não se fez carne para que o explicássemos, seu propósito era mais nos enlouquecer. Ou cremos amando enlouquecidos e ressuscitamos, ou permanecemos mortos com nossa razão.
Ortodoxia é uma palavra grega que significa “correta opinião”. O Cristianismo nasceu de constantes ortopedias de opiniões acerca do Evangelho, deixando bem claro que era esse seu interesse, era esse o seu valor máximo, a correta opinião. Ora, a fé nunca foi sinônimo de correta opinião, a fé é toda paixão, vísceras, ardor de espírito, despencar para viver ou morrer... Qualquer um que lê os evangelhos com alguma simplicidade verá que Jesus buscou nos homens não a correta opinião, pois conviveu pacificamente com os discípulos que tinham opiniões completamente incorretas sobre Ele. O que Jesus procurava nos homens era algo que podemos chamar de ortopatia (orto: correta, pathos: “o que se experimenta e se sente, paixão...), a correta paixão. Talvez soe estranho uma ortopedia para a paixão, uma “paixão correta”, mas, para Jesus, a correta paixão é a infinita, cujo fogo não sabe os limites, a que arrasta a existência inteira num ímpeto irresistível. É isso que Jesus deseja suscitar e encontrar nos homens, essa paixão confiante, essa fé apaixonada, ardente, que se dispõe a sofrer com Ele, a vivenciá-lo, a existir por Ele, nEle, com Ele. O Cristianismo matou e mata por causa da ortodoxia, deixando claro e evidente que há muito tempo esqueceu Cristo, cujo grande interesse era algo como umaortopatia.
Al Duarte 4/2010
